A notícia de que a expectativa de vida no Brasil chegou a 76,6 anos em 2024, divulgada pelo IBGE, não é apenas um dado estatístico: é um espelho de escolhas sociais e individuais que se acumularam ao longo de oito décadas. O ganho de dois meses em relação a 2023 parece pequeno, mas representa centenas de milhares de brasileiros que ultrapassaram barreiras que, há poucas gerações, eram intransponíveis. Para quem está vivo hoje, a implicação prática é que o envelhecimento deixou de ser exceção para virar norma; planear as próximas décadas com base em ciclos de vida mais longos tornou-se obrigação, não opção. Isso afeta desde o momento de ingressar no mercado de trabalho até a idade em que se passa a considerar vacinas, exames de rastreamento e atividade física como investimentos, não como custos.
O salto de 31,1 anos em 84 anos (de 45,5 para 76,6) não se explica por uma única causa, mas por um conjunto de mecanismos que reduziram mortalidade em todas as idades. A queda da mortalidade infantil — de 146,6 para 12,3 óbitos por mil nascidos vivos — liberou o país do risco de perder, no primeiro ano de vida, quase 15 % de cada geração, como ocorria em 1940. A expansão da vacinação, do saneamento básico e do acesso ao pré-natal criou um efeito dominó: crianças que sobrevivem tornam-se adultos com menos sequelas de doenças infecciosas e com mais anos produtivos. Já a redução de mortes por doenças cardiovasculares, observada desde os anos 1990, combinou-se ao controle da hipertensão e ao declínio do tabagismo, puxando a curva de sobrevida para cima mesmo entre os mais velhos. O próprio arrefecimento da pandemia de Covid-19 devolveu ao país 3,8 anos de expectativa perdidos entre 2020 e 2021, mostrando que, quando a causa externa deixa de existir, a tendência de longo prazo retoma seu traço ascendente.
Os cuidados necessários para manter essa trajetória, porém, não são os mesmos de 1940 ou de 1980. A nova curva de sobrevida exige atenção às doenças que se manifestam depois dos 60 anos — diabetes, demências, cânceres colorretal e de próstata — e que tendem a ocupar o lugar das antigas causas infecciosas. A prevenção passa por exames de rastreamento programado, mas também por políticas que garantam renda e inclusão social aos idosos, evitando que a sobrevida extra seja acompanhada de incapacidade. Limites existem: a diferença de 6,6 anos entre mulheres (79,9) e homens (73,3) mostra que escolhas culturais — uso de serviços de saúde, padrões de alimentação, exposição à violência — continuam a moldar o ritmo de envelhecimento. Além disso, o país ainda está longe dos 86,5 anos de Mônaco; parte da diferença decorde de renda, mas outra parte reflete a persistência de desigualdades regionais no acesso a medicamentos de uso contínuo e a especialistas. Manter o crescimento da expectativa dependerá, portanto, de manter os mecanismos que já funcionam — saneamento, vacinação, controle de fatores de risco — ao mesmo tempo em que se amplia o escopo de cuidados para as condições crônicas que ganham espaço justamente porque as pessoas vivem o suficiente para desenvolvê-las.
